Crítica – Ato III: América do Sol (Baiana System)





Finalmente o Ato 3: América do Sol, da banda Baiana System, está entre nós. O álbum é a conclusão do projeto OXEAXEEXU, lançado aos poucos durante o primeiro semestre de 2021.


O disco é o resumo do conceito deste movimento que é o Baiana. Isto é, dispostos tais quais tese, antítese e síntese, em que o teor do discurso político engrandece-se pelo arcabouço musical, América do Sol produz e gerencia o encaminhamento da pesquisa e da autorreflexão.

Este terceiro ato começa com Corneteiro Luís e sua ligação direta à última faixa do ato 2, Guerra Batalha. Tem-se, assim, um levante rumo à vitória pelo chamado baiano e sistêmico para a guerra, para o ataque e para a finalização duma missão. E a missão do Baiana é resgatar e trazer vozes e histórias, como a do Corneteiro Luís, ao palanque, com o intuito de que o Brasil apresente-se, conheça-se e valorize a sua própria construção.


A revisitação do fazer artístico é o verniz dessa escultura emblemática da banda. Por exemplo: o lançamento do fonograma de A vida é curta pra viver depois, presença constante em seu repertório, o samba-reggae reinterpretado com elementos do Rap e do Hip Hop e o olhar para o lado e se reconhecer em civilizações próximas que compartilham traços identitários semelhantíssimos aos nossos. A faixa é brilhantemente interpretada por Carolaine, artista da Orquestra Neojibá.


Dança de Airumã reconecta-se numa ancestralidade indígena junto ao povo Suruí com seu canto-mantra banhado de natureza e verdade e ao ijexá elevado ao mais alto grau de pureza e sapiência do Maestro Bira. Essa faixa remete-nos ao samba de roda do recôncavo, às rodas de capoeira, aos círculos de nações indígenas, à roda do Navio Pirata.


Com letra forte, Capucha acende a luz à luta feminina, alinhando o discurso político tão presente nas pautas do Sistema Baiana. É um grito de humanidade frente a qualquer desejo de liberdade e vida. Eis, portanto, o pedido à Pachamama. Essa faixa, que precede Capucha, cria a atmosfera e a plena noção de que já não mais se habita o território brasileiro. É um legítimo embarque ao wayñu, ritmo andino pré-colombiano. As duas faixas são cantadas e compostas pela cantora chilena Claudia Manzo.


Oxe representa o processo de apropriação que o itinerário centro-sulista tem ao migrar para o nordeste apenas para as regalias festivas sem, de fato, valer-se das lutas e condutas que empenham o povo daqui. Incorpora o aspecto sonoro do maculelê e seu primo famoso, o funk carioca, sem deixar de saudar as claves que se circunvizinham, como o forró, o baião, etc. Tem participação de Rapadura e de mestre Bule-Bule.


Vixe é o mantra sertanejo que reitera o poder de entidades influentes nordestinas. Reza Frevo fecha essa viagem à América solar, de frevo, de nações indígenas e nações pretas.


O disco é coeso desde sua primeira faixa no Ato 1 à última do Ato 3. É um só pedido de paz, amor e serenidade frente às ansiedades da vida pandêmica. É um reconectar desde a arte visual de Felipe Cartaxo e sua clara ligação com o pintor Rubem Valentim, até os pedidos de bênçãos e transporte do legado de mestres como Ubiratan Marques e Bule-Bule. Os elementos sonoros e rítmicos coexistem em função da história e da mensagem. Nem Russo Passapusso, nem Beto Barreto sobressaem-se em qualquer empenho egocêntrico. Aqui, a arte atua pela arte.


O objetivo é, então, que o Brasil conheça a si. Que o país desfaça-se de viralatismos em relação a países dominantes do capital e que exportam sua cultura como unicidade e beleza. Que o brasileiro desarme-se dos subviralatismos com políticas de exclusão cultural e geográfica. O ritmo, a clave e a potência que regem o Brasil são uma coisa só.


Nota: 4 acarajés e 1 abará


Serviço:

Banda: Baiana System

Álbum: OXEAXEEXU – Ato 3: América do Sol

Duração: 22min40s

Número de faixas: 8

Ano: 2021

Direção Artística: Baiana System

Produção Musical: Daniel Ganjaman