Crítica – Educação Americana: Fraude e Privilégio

Se você espera um documentário que caia na mesmice e te faça sentir sono, Educação Americana: Fraude e Privilégio definitivamente não é para você. Numa construção documental que beira o hollywoodiano, muitas vezes o espectador precisa se lembrar que se trata de um documentário, ou seja, são fatos ali explícitos na tela e não somente atores, mesmo que a realidade dos fatos pareça um enredo muito bem construído de um filme de sucesso.


A Netflix tende a conseguir extrair de um gênero relativamente estático como o documental suas possibilidades mais inimagináveis, capturando a atenção de quem está assistindo. E ainda que o espectador tenha acompanhado as acusações e as investigações via noticiário, ainda mais se tratando do boom de notícias que o escândalo das fraudes no processo de admissão das universidades nos Estados Unidos gerou, quando assistindo ao longa, parece haver muito mais na história do que somente a CNN ou o jornal das oito cobriu.

Usando os próprios áudios de conversas com os envolvidos, além de investigar a vida (desde seus hábitos até mesmo seu passado) do epicentro da investigação, William “Rick” Singer, acima de tudo, há uma intensa humanização de cada individuo, por mais que se tratem, no duro, de criminosos com quantias absurdas de dinheiro em seus bolsos (prontas para serem usadas).


O filme explora, principalmente, os limites da moral (ou a falta dela) e o privilégio, além de o poder que o mesmo pode exercer no futuro de alguém, à despeito de afetar outros ou não. Não é raro ver vídeos de reações às admissões nas Universidades online, em plataformas como o Youtube, por exemplo, afinal, é uma cultura bastante explorada nos EUA, onde a competitividade por uma vaga numa Ivy League (ou seja, um grupo seleto de oito universidades privadas do nordeste dos Estados Unidos) é intensa e muitas vezes causadora de danos psicológicos aos adolescentes que malmente sairiam do Ensino Médio (algo que nós, brasileiros, de certa forma compartilhamos com relação ao Exame Nacional do Ensino Médio).

Assim, o documentário faz um recorte de cerca de sete anos, explorando famílias chave com as quais Rick Singer fez “negócios”, um eufemismo usado para amenizar o que todo a relação foi: uma compra e venda, por preços exorbitantemente altos, de lugares numa universidade que fosse “à altura” dos filhos de homens e mulheres ricos e, segundo falas no próprio documentário, aqueles com “direito à trapacear”.

O documentário traz reflexões bastante pertinentes com relação à meritocracia, por exemplo, e como, de certa forma, o envolvimento dessas famílias com as fraudes pode ter muito mais relação com o sentido de status e prestígio (afinal, que pai não gostaria de encher os pulmões para falar sobre como o seu filho ou filha, uma extensão de seu próprio sucesso, entrou numa universidade extremamente cotada?) do que uma real preocupação com a educação do individuo em questão.


Seria então, culpa do sistema? Por quanto dinheiro você estaria disposto a sacrificar sua ética? Essas são perguntas que nos fazem pensar até onde o dinheiro pode multar o seu passado, presente e o futuro, se tornado muito menos uma questão de apenas “admissão” numa faculdade, mas também sobre a permissão ou negação de um futuro àqueles cuja família não pode pagar meio milhão por uma entrada “pela porta dos fundos”.


O filme delega pouca atenção, entretanto, às acusações e suas consequências, afinal, os acusados até o momento (e o filme deixa bem explicito que ainda existem muitos outros) foram condenados à meses ou até mesmo dias na cadeia, nos levando à pensar que, apesar do custo mediático de suas ações, será que houve mesmo uma sanção à altura de seus crimes?


Educação Americana: Fraude e Privilégio é um documentário impactante que nos faz pensar sobre os limites da meritocracia e do privilégio ou até mesmo se essas fronteiras existem.


Nota: 4 acarajés.


Ficha técnica:

Título original do filme: Operation Varsity Blues: The College Admissions Scandal

Direção: Chris Smith

Elenco: Matthew Modine, Sarah Chaney, Leroy Edwards III, Wallace Langham, Gus Lynch, Ken Weiler

Plataforma: Netflix

Estreia: março de 2021 (mundial)

País: Estados Unidos

Gênero: Crime, Documentário

Ano: 2021

Duração: 100 minutos

Classificação: 10 anos