Crítica - Elvis



Elvis Presley é considerado o Rei do Rock (há controvérsias e é inegável que o debate é válido), que trouxe hits, rebolado, roupas diferentes e moldou o estilo de vida de gerações desde os anos 1960. É bem comum encontrar covers do cantor estadunidense por aí, imitando seu topete, vestindo uma jaqueta ou macacão de couro e impondo uma voz grave ao cantar seus grandes sucessos. Há quem diga que Elvis não morreu (quanto a isso, o debate é bem menor), mas desde quando surgiu meteoricamente nos EUA até o dia de sua morte, o homem foi um fenômeno e a história de sua vida atraiu e seguirá atraindo toda a atenção do mundo.


Na hora da arte imitar a vida, é sempre importante o cuidado com as pessoas escolhidas para tal porque precisam ser muito competentes em um papel muito característico e é muito fácil se perder a mão nessa hora. Quando Austin Butler foi anunciado que seria o Elvis, nesse filme, houve quem torcesse o nariz pro ator facilmente encontrado em séries infantojuvenis. Espero que essa mesma galera abaixe a guarda porque a interpretação dele no longa é um grande atrativo, desde a maquiagem até os concertos, dá facilmente pra confundir se é o ator em 2022 ou o cantor em 1968. Austin tem presença de palco, entrega tudo nos excelentes números musicais (ninguém perguntou, mas acho muito pitoresco o termo "fazer um número", bastante ouvido em programas de auditório) e ajuda a mostrar porque todo mundo ficava louco por onde o cantor passava. Inclusive na trilha sonora do filme, há uma gravação dele pra "Trouble" que potencializa esse meu ponto. Só dá play e entenda que o homem tem o molho.

Gastei um parágrafo pra falar de Austin Butler e agora vou fazer outro apenas para falar de Tom Hanks. Dizer que esse senhor é menos do que excelente ator é sinônimo de desvio de personalidade, mas a entrega que vimos na interpretação do “Coronel” Tom Parker – o empresário de Elvis Presley toda a vida e considerado um dos transformadores da vida do cantor, tanto pra bem quanto pra mal – é grandiosa. Primeiro só dá pra saber que é ele no papel porque o nome dele tá no pôster. Além disso, a interpretação de uma pessoa que se “transforma” (digamos assim) no fio condutor da história merece destaque. Hanks narra a história e o peso dele em cima da narrativa é muito forte. Austin rouba a cena e Tom dá um suporte excelente.


As atuações são o destaque, mas é importante frisar também a belíssima direção de arte. Dá pra saber que o filme é colorido, animado e vivo na hora que aparece o logo da Warner Bros. cheio de lantejoulas e outros adereços nos créditos iniciais, tal qual uma jaqueta do Elvis. Por ser um filme de “época”, ambientado nos anos 50 e 60, era necessário que houvesse uma entrega boa quanto a ambientação, não só de figurino, mas também do enorme agito que Elvis causava nos palcos e do entendimento como era os EUA naquele momento pra captar as influências do cantor. A percepção da ascensão da cultura gospel no meio do povo preto (e o Elvis no meio disso, mas isso é algo que a gente conversa mais tarde), o racismo explícito por meio de partidos políticos separatistas, que interferiram num homem branco fazer sucesso com seu rebolado envolvente e uma voz potente, são bem explicados e facilitam demais a compreensão do que rolava naquela época e porque Elvis Presley, entre outros, sofreram tanto preconceito por conta do conservadorismo.


Entretanto, nem tudo são flores. Cinebiografias são complicadas de se fazer porque é um pulo pro filme se perder. A depender da pessoa retratada, a produção pode ser muito “chapa branca” e acabam não contando um terço da missa pra pegar leve com o protagonista da história e encaixar uma bela lição de moral que, preferencialmente, a figura retratada tenha a nos ensinar. Não acredito que seja muito o caso de Elvis, mas eu, como homem preto, preciso dizer que o diretor Baz Luhrmann perdeu um pouco a mão nisso. Há alguns momentos que, se fossem estendidos, me fariam acreditar que Elvis Presley seria o homem responsável por acabar o racismo no mundo. É verdade que ele era amigo do B.B. King (interpretado por Kelvin Harrison) e que as influências de Elvis, em sua grande maioria, eram pessoas pretas e a cultura gospel estadunidense, mas eu senti que algumas dessas construções no filme pareciam mais uma resposta a Quincy Jones (dá um google rápido, caso não entenda o que estou falando) do que uma exibição da realidade. Entretanto, vou dar o benefício da dúvida e quero acreditar que foi um erro de tom, apenas. Nem vou entrar na questão do fato que toca Doja Cat no meio do filme por sei lá qual motivo.


Tirando isso, e apenas isso, o filme é lindo, tem a assinatura de Baz Luhrmann (o mesmo cara de O Grande Gatsby e Moulin Rouge) com sua pegada teatral, mas a ambientação e as atuações de dois caras que teriam sua vaga garantida no Oscar, caso o longa fosse lançado em novembro, são o grande destaque. Elvis te prende, faz cantar, dançar e sair da sala de cinema querendo ouvir mais Elvis.


Nota: 4 acarajés e um abará. Era pra ser cinco.


Ficha Técnica:


Nome Original: Elvis

Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Kodi Smit-McPhee, Olivia DeJonge, Richard Roxburgh, Kelvin Harrison Jr., Helen Thompson, Dacre Montgomery, David Wenham

Duração: 2h39min

Gênero: Drama, Musical, Biografia

Roteiro: Craig Pearce

Direção: Baz Luhrmann

Produção: Baz Luhrmann, Gail Berman, Patrick McCormick, Catherine Martin

Distribuição: Warner Bros.


Não tem cena pós-créditos no filme, mas já que você veio até o final, toma uma playlist do filme que tá sensacional.