Crítica - Liga da Justiça de Zack Snyder (Snyder Cut)


É inevitável assistir a esse filme sem compará-lo com o anterior. Era isso que nós queríamos, deveríamos e merecíamos ver com os Heróis da DC. Esqueça as construções enfadonhas de personagens. Liga da Justiça de Zack Snyder tem tempo. Tudo é articulado: o background dos personagens, os planos, a trilha sonora, o roteiro. Completamente diferente do longa anterior em que tudo parecia ser vomitado na tela; era como se alguém estivesse apressado, atrasado, dando aquela corridinha pra pegar o ônibus que já deu sua arrancada e grita: “Ei, motô! Pera aí!”. Joss Whedon e a Warner são essa pessoa correndo e chamando o motorista, como que dizendo: “Ei, temos uma coisa legal pra mostrar, vem aqui, me dê atenção”.


O tempo é o primeiro elemento que conta a favor desse longa. Com suas cerca de 4 horas de duração, Zack tem o tempo necessário para desenvolver e aprofundar cada personagem e seus conflitos; ele tem tempo de contextualizar as ações da trama. Exemplo: o modo como o Lobo da Estepe adquire a caixa materna que estava sob a jurisdição da humanidade, e, nesta altura da trama, encontra-se na mão da Liga. No filme de 2017 a ideia é que a equipe de heróis foi imprudente e esqueceu (!), sim, E S Q U E C E U, da caixa e a deixou à toa. Daí, o vilão vem e se apodera da máquina. Ponto. Engula isso. É leviano. Nesta versão de 2021, é nítido que a Liga abdica, homericamente, da caixa materna em prol de salvar seu aliado, Clark/Superman (Henry Cavill), em sua ressurreição. Isso se dá porque Clark seria sua maior arma contra esse plano de dominação. Percebe? Coisas que precisam de tempo pra desenvolver.


A mesma coisa acontece quando falamos de personagens, como, por exemplo, o Lobo da Estepe. Eis um vilão. Com características supramaniqueístas, esse agente de Darkseid é contextualizado, e suas ações são justificadas. É possível entender suas obras, bem como sua motivação de estar ali disseminando violência ao povo da Terra. Ainda nesse mesmo fio condutor, há o maior injustiçado pela versão da Liga de 2017, o Cyborg. Como, eu repito, como é que foi que a história que é o trem que conduz o espectador pelo enredo foi absolutamente jogada no lixo naquele filme de 2017? Um absurdo! Cyborg foi boicotado, assim como seu intérprete foi. Ray Fischer foi uma das pessoas que relatou abusos por parte do diretor Joss Whedon nas refilmagens e que foi rechaçado pelo estúdio. É por isso que o Liga de 2017 não faz sentido. É como tirar os pneus de um carro e querer que ele se movimente de um ponto A para um ponto B. Parabéns para a história de Cyborg.


Flash (Ezra Miller) sofreu uma suavização do seu hiperbólico papel de alívio cômico - ponto positivo. Porém, foi subutilizado. Não falo sobre este Flash ser um jovem de uma geração moderna que realmente vê piada em tudo e que é naturalmente acelerado. O Flash enquanto ferramenta de combate é subaproveitado. Talvez seja este o ponto. Flash não é somente uma peça numa guerra. Ele é poderoso (e muito!). Tivemos um rápido (o trocadilho foi sem querer) vislumbre de seu poder em sua cena final. Era esse tipo de velocista que queríamos. Diferentemente disto, Aquaman (Jason Momoa) está no ponto certo. Ele não é mais nem menos na trama. O Atlante está em seu habitat de desenvolvimento pessoal, com suas questões da não aceitação de quem é ainda a serem enfrentadas – como vimos em seu filme solo. Batman (Ben Affleck) é ligeiramente (note, apenas um pouco) confuso, visto que, ainda em Batman Vs Superman, ele era dono de uma amargura que sugava qualquer ânimo ao redor. Aqui, ainda que muito, muito, muito menos que na versão de Whedon, o Batman carrega uma esperança e fé ligeiramente desmedidas ante o cenário e seu recente histórico.


Gal Gadot é sensacional em sua atuação, em sua entrega e em seu carinho ao tratar sua personagem. Ela é visceral - a bem dizer do decepamento do Lobo da Estepe. Parabéns, Gadot, você é a nossa Mulher Maravilha. Quanto à personagem, é nítido seu imenso poder de batalha , sua liderança e confiança. Já o Superman não supera expectativas nem decepciona. Ele cumpre a função ao qual foi destinado: ser a força maior a destruir o vilão.





O CGI é primoroso com Darkseid, Lobo da Estepe e os parademônios. Os únicos momentos em que pode-se ser desprendido da experiência são durante as aparições do Caçador de Marte. Outra questão que chega a desapontar é o uso excessivo de câmera lenta. Ok, é a assinatura do diretor. Contudo, Zack testa a paciência de seus espectadores.


No final das contas, o saldo é muito positivo a favor do Liga da Justiça de Zack Snyder. O ritmo, apesar do uso cansativo de câmeras lentas, é eloquente. Sim, ele fala muito a respeito do enredo e o que se propõe. É a partir do ritmo, como pela escolha da divisão do longa em capítulos, por exemplo, que podemos compreender a história de modo mais didático. E obrigado, são 4 horas de filme.


O Snyder Cut é paciente, elogioso, aprazível e envolvente. Isso é ideal. Além do que, traz uma mensagem de união, confiança e afeto. Talvez não fosse esse o filme que de fato veríamos nos cinemas anos atrás, dada a amplitude da duração desta versão de 2021. Porém, esse é o filme que merecíamos.


Nota: 4 acarajés.


Veja a crítica sem spoilers que fizemos no nosso canal no YouTube no vídeo abaixo:

Se já assistiu ao filme, veja a crítica com spoilers: