Crítica - Nordeste Ficção (Juliana Linhares)



É um colo de mãe. Vão-se os anos, ele pode até mudar, mas o colo de mãe é aquele que traz aconchego e paz; é pra onde vamos pra nos reconhecer. Na verdade, não é o colo que muda, somos nós. Por isso, ele é nosso espelho, nosso guia. Nordeste Ficção, novo álbum da cantora, compositora, atriz e diretora Juliana Linhares, me trouxe a esse lugar de afeto.


E por que eu digo que habita esse lugar de afeto? Pela identificação. É um álbum que retoma uma ancestralidade que nos aflora um afã de pertencimento. Nada mais havia sido feito nesse sentido, que ganhasse notoriedade nacional e que representasse esse recorte nordestino de modo que honrasse nossa identidade como esse álbum fez. Nordeste ficção não só bebe da fonte da tradição, como se banha nele. O álbum, nas suas 11 faixas, estabelece um diálogo entre as gerações como uma verdadeira ponte que facilita a comunicação.


Seria injustiça reclamar um discurso de ineditismo caso Josyara, Zé Manoel, e Isadora Melo, por exemplo, já não estivessem na cena. Não (e longe está de nós esse discurso), o nordeste não é uma unidade, muito menos é “Nordeste”. “Nordeste”, num sentido reducionista, é mais uma região de gerenciamento político em que identidades populacionais têm cruzamentos mais frequentes. Portanto, frente a essa vastidão de nordestes, o que Juliana traz é genuinamente um xote em Balanceiro. Esse ponto é positivo. Quer dizer, é como um funil em que suas vivências são coadas num pote: Juliana Linhares. A voz da própria Juliana, especialmente com seus vibratos, nos lembra Elba Ramalho, Flávio José e Anastácia.


O álbum não se desprende do moderno ou é unicamente um retorno aos clássicos. Nordeste ficção passa pelos anos 2000 com Zeca Baleiro, isto é, num passado recente, quase agora. Ele é a cara de Josyara, que é um dos modernos mais modernos. Esse disco tem potência radiofônica, daqueles em que a música de trabalho fica repetindo em loop na Nova Brasil FM. Meu Amor Afinal de Contas serve de exemplo.


A cantora passeia pelos subgêneros do forró com tamanha sutileza que nos faz pensar que são a mesma coisa, dada a coesão estrutural. É uma só história contada. E que história. Bom que se diga da imensa habilidade de Juliana como compositora. Nesse álbum, com direção artística de Marcus Preto e produção de Elísio Freitas, Juliana Linhares divide composições com nomes já consagrados da música nacional, como Chico César, Zeca Baleiro e Khrystal; mas também ressoa como intérprete de canções como Tereco e Mariola, clássico de Petrúcio Amorim (imortalizada na voz de Flávio José) e uma música inédita de Tom Zé, a Aburguesar.


Aburguesar. Que linda poesia de Tom Zé. Que tango! Que forró! É lindo ver a consagração de elementos mútuos executados tão generosamente. Juliana emerge como essa intérprete que o Brasil precisa, das quais e dos quais o Brasil sente falta.


Nordeste Ficção tem a profundidade e superficialidade no grau certo. É denso e leve. É a realidade e a fantasia; é Nordeste e ficção. É um disco que trata da ambiguidade existente em nós mesmos, isto é, tão reais que beiram o surrealismo. É um álbum que equilibra sua setlist, que não é aquele fade out, nem fade in costumeiros. É uma montanha russa tão boa e necessária. É um show que nos deixaria feliz na última música e nos faria sair satisfeitos do teatro, da arena, da concha acústica ou do Largo Tereza Batista, cantarolando e querendo continuar dançando.


Afinal de contas, colo de mãe é isso: aconchego, amor, carinho, alegria, animação. É o toque de nostalgia e o salto absoluto do sonho e do inconsciente pelo afeto que encontramos ali.

Nota: 5 acarajés.


Serviço:

Cantora: Juliana Linhares

Álbum: Nordeste Ficção

Duração: 41m 12s

Número de faixas: 11

Ano: 2021

Direção Artística: Marcus Preto

Produção Musical: Elísio Freitas

Disponível em todas as plataformas digitais.