Crítica - Relatos do Mundo

Atualizado: 16 de fev. de 2021



Western é mais que sangue e poeira


Como todo e qualquer gênero o Western, ou Faroeste, teve seus tempos de glória com clássicos eternos tais como No Tempo das Diligencias (1939) e também Sete Homens e um Destino (1960). Mas como tudo na arte se transforma, a antiga fórmula ficou obsoleta precisando assim de uma nova forma de se retratar tempos tão ambíguos como foi o século XIX e o começo do século XX na terra do Tio Sam antes do próprio Tio. Quando seus estados ainda não eram unidos é que o caráter e a coragem de yankees e confederados, azuis e cinzas, livres e escravos era posto à prova. Essa era uma dualidade pouco explorada no classic western, mais focada no bang-bang, nos saloons e no frequente personagem moralmente incorruptível (que curiosamente era ambientado em tempos de total corrupção moral). Já nos anos 60 se observou uma notável quebra de paradigma principalmente no subgênero western spaghetti que trouxe uma visão mais realista do que realmente acontecia no Oeste principalmente no pós guerra, destaque para a obra de Sergio Leone principalmente na Trilogia dos Dólares com seu anti-herói o Pistoleiro Sem Nome que representa muito bem a ambiguidade da época. Herói ou vilão? Um mercenário poderia ter certa medida de moral? E então chegamos ao ponto abordado no filme que será o objeto de estudo desse texto. Relatos do Mundo se encaixa no chamado neo western pois tem elementos e ambientação do violento faroeste clássico e ao mesmo tempo explora as nuances do dualismo do western spaghetti com uma dose ainda maior de drama e até melodrama. Denso, muito bem ambientado e reflexivo, novo longa na Netflix prova ser um dos melhores do ano e pode ser recompensado com indicações na temporada de premiações.


Vivido pelo sempre excelente Tom Hanks, o Capitão Jefferson Kyle Kidd veterano de duas guerras e viúvo viaja pelo Texas lendo noticias sobre o mundo, um novo mundo bem diferente dos padrões conservadores texanos, com uma dose de ludicidade e anedotas. Em uma dessas viagens tem seu caminho traçado com Johanna (Helena Zengel), uma criança órfã de proveniência alemã, mas que foi criada pelos nativos (não esperem que eu vá usar a palavra “índios” aqui, uma vez que já é provado que isso só corrobora um estereótipo xenófobo e anti-histórico) da tribo Kiowa. O Capitão parte então numa perigosa viagem visando devolver a menina para o que restou de sua família.


Como já foi citado Tom Hanks está mais uma vez excelente (selo chover no molhado). Ao figurar um personagem claramente cansado e cético acerca dos ideais que a guerra o fez defender. É muito claro que mesmo sendo sulista e tendo sido capitão de tropas Secessionárias na Guerra Civil ele não corrobora com os ditos “valores” daquela região, que dentre eles estavam o direito à escravidão e também ocupação de terras nativas por meio de sangrentas batalhas. A atuação de Hank é pontual e tocante, ao passo que seu personagem é levado contra sua vontade de volta a uma espécie de campo de batalha contra homens que como ele perderam tudo. Em busca do lar de sua protegida ele encontra o seu próprio caminho numa desconstruída porem interessantíssima jornada do herói. A cada trabalho Hanks mostra que ainda pode se reinventar, vivendo seu primeiro western aos 64 anos, mostrando mais uma vez que é um dos melhores atores da sua geração e de todos os tempos.


A jovem porem talentosíssima Helena Zengel não se intimida por ser sua estreia no concorridíssimo cinema norte americano e contracenando com uma lenda da atuação. Pelo contrário em diversas tomadas rouba a cena na pele de uma personagem multifacetária e com uma identidade extremamente complexa. Alemã, logo imigrante, minoria, ao mesmo tempo de etnia ariana (branca) como a maioria sulista, e ainda assim criada por nativos na cultura e língua Kiowa não fala uma palavra de inglês, volta a ser minoria. Tal complexidade é passada perfeitamente pela performance da atriz, outrora “selvagem” no desenrolar da história mostra que só quer seu ponto de paz e segurança. Não é novidade para a estrela mirim interpretar crianças com uma forte personalidade, sendo ela vencedora do Prêmio de Cinema Alemão de Melhor Atriz por sua atuação em System Crasher (2019) com uma personagem com grandes similaridades com Johanna, a escalação não é surpreendente. E agora iguala o recorde de Kirsten Dunst e Haley Joel Osment como mais jovem indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz ou Ator coadjuvante na aurora de seus 12 anos. Espero ansiosamente pelo promissor futuro dessa joia tão precocemente lapidada.


A direção realmente se sobressai no que diz respeito à ambientação, montagem, trilha entre outros aspectos técnicos sendo dentre eles a ambientação o que mais chama a atenção. Ambientar não só o espaço físico, mas também algumas sub tramas e personagens coadjuvantes cada um com sua carga dramática que é totalmente aceitável pelo contexto em que estão inseridos. É louvável como o roteiro não demoniza completamente os sulistas, ao invés disso dá um preambulo que torna ações de determinados personagens entendíveis mesmo que não justificáveis. Repetindo, são pessoas em sua maioria sobretudo homens remanescentes de uma das mais sangrentas guerras da história da humanidade principalmente no período antes da revolução francesa. Esses elementos são muito bem trabalhados mesmo que as vezes só em uma frase ou uma cena, já é mais do que o suficiente.


Por fim é absurdamente intrigante que um filme que retrata uma sociedade de dois séculos atrás ainda traga discussões tão atuais. Em determinada cena um texano conservador grita: “O Texas primeiro!”. Confesso que um pequeno sorriso de canto de boca foi instantâneo, já que 4 ou 5 anos atrás outro conservador gritou algo bem parecido. Só que ele não vestia o uniforme cinza confederado, estava mais pra uma tonalidade alaranjada ...


Relatos do Mundo é um filme denso, que pode causar diferentes interpretações. Vários fatores poderiam ser isolados e objetificados como tema de discussão. Só que a principal mensagem que fica é que na maioria das vezes é nas diferenças que encontramos a nós mesmos. Dois personagens completamente opostos cruzaram uma planície desértica juntos sem compartilhar do mesmo idioma nem da mesma cultura conseguem criar um vínculo entre si porque essa é a real “graça” da raça humana, nossas diferenças é o que nos tornam iguais. O Capitão Kidd queria só seguir em frente, Johanna mostrou para ele que pra seguir em frente primeiramente tem que se revisitar o passado. Excelente filme, imperdível!


NOTA: 5 ACARAJÉS