Crítica - Silenciadas


“Se fosse um sonho, como tantas mulheres poderiam ter o mesmo sonho?” é uma das primeiras sentenças dentro do filme, proferida pelo personagem do Meritíssimo e não poderia ser mais justo considerar a frase como uma das mais impactantes, nos fazendo refletir não somente sobre o contexto do longa, mas sobre nossas próprias vivencias dentro do paradigma questionador que é ser mulher.


De roteiro e direção por Pablo Aguëro (Eva Não Dorme), contando como elenco Amaia Aberasturi, Yune Nogueiras, Jone Laspiur e Àlex Brendemühl, o filme se passa durante a Inquisição Espanhola, período entre meados de 1400 e 1824, quando aproximadamente 300 mil pessoas foram condenadas à tortura, castigos e até mesmo à morte por “desvios relacionados à prática cristã”.

Era de se esperar, no entanto, que uma parcela daqueles julgados fossem mulheres ao longo de todo o território espanhol. Contudo, o filme em questão faz melhor do que apenas explorar esse fato histórico que para muitos poderia ser apenas um detalhe. De uma narrativa visceral, intensa e imersiva, Silenciadas (Akelarre, no título original), explora as perspectivas das mulheres julgadas em questão. Estas que, acima de qualquer característica, se recusam a baixar os olhos e se submeter.


Dotadas de uma inteligência única e lideradas por Ana (Amaia Aberasturi), as seis mulheres formam um grupo pouco convencional, mas que em momento nenhum deixam de estar ali umas para as outras, independente de suas diferenças e vulnerabilidades. Esse ponto fica bastante nítido em uma cena onde todas se auxiliam no cuidado com uma delas após um espancamento sistemático e cruel, mergulhadas no silencio, mas em completa sintonia.


Silenciadas é um filme relativamente curto, possuindo uma hora e trinta e dois minutos, mas não há um só momento em que o espectador não encontre tensão (afinal, o terror é usado de forma equilibrada), questionamentos internos e certa satisfação no desenrolar de cada cena. A pergunta que resta no filme talvez seja se elas eram de fato bruxas ou não, mas me parece um pouco irrelevante quando as mesmas foram donas de seus destinos e narrativas apesar de todos os percalços. Assim, uma afirmação é certa: a última característica que se aplica à estas mulheres é o silêncio.


Nota: quatro acarajés e um abará.