Crítica - Spirit: O Indomável



Legal, mas, desnecessário.


“Toquem o clarim...” Só de ler essa estrofe talvez você consiga ver o rosto do corcel abatido por estar sendo afastado de sua família e levado para terras desconhecidas à contragosto. E que tal essa: “Não vá pensar que eu estou acabado...” Essa dá vontade de enfrentar o mundo, trilha sonora de muito bodybuilder por ai eles só não admitem, vai entender esses hetérotops. Esse breve exercício de nostalgia foi para provar brevemente o quanto essa clássica e primorosa animação ainda está fresca na memória e mesmo prestes a completar 20 anos de sua estreia ainda funciona perfeitamente para qualquer idade. Historiadores ao olharem para a nossa geração talvez vão a batizar de ‘A Era dos Exageros’, a megalomania faz parte da cultura humana do século XXI. E poucas esferas mostram tão claramente essa megalomania quanto os grandes estúdios cinematográficos. Junte essa megalomania com o nítido ostracismo criativo da indústria e voilà: nasce Spirit: O Indomável, nova animação da DreamWorks Animation que apesar de não ser ruim em nenhum momento se justifica como necessária.


É importante salientar também que se trata de uma animação mais infantil em relação à sua antecessora e isso pode justificar algumas escolhas de roteiro. Olhando pela ótica do público alvo não consigo imaginar uma criança (principalmente com menos de 12 anos) que não se sinta contemplada ao terminar o filme. A história é bem básica e em nenhum momento tenta ser mais do que o mais didática possível. O traçado da animação me desprendeu um pouco, mas as crianças devem gostar por ser mais cartunesco do que realista mesmo sendo uma animação 3D.


Já você, que assim como eu, vê no título um forte aquecimento nostálgico no coração eu saliento: Não se empolgue. Fica claro que é uma clara jogada de marketing para atrair os fãs da animação original que agora provavelmente já tem filhos a leva-los ao cinema, uma vez que mesmo o personagem estando presente esta não é a sua história, mas sim a história da protagonista Lucky (ou Fortuna). Uma das coisas mais interessantes do filme original era ver a história pelo olhar de Spirit, era a sua história, sua noção de mundo, sua narração pautando os pensamentos, e todos os humanos eram coadjuvantes. A relação criada entre espectador e cavalo era singular. Nada dessa premissa foi aproveitado, na verdade poderia tranquilamente dar qualquer nome ao cavalo do filme que não faria qualquer diferença. Inclusive a forma que Lucky batiza ele é extremamente aleatório sem a profundidade nem a justificativa necessária para um nome singular que representa um espirito livre no ponto em questão da história. Lembra quando o nativo (se você ainda chama de índio volte duas casas rs) batiza o corcel indomável? Sim, você lembra, porque faz total sentido.


Comecei esse texto citando a trilha sonora porque é um dos pontos altos do filme de 2002. É inesquecível. Paulo Ricardo estará pra sempre imortalizado em nossos corações. Músicas que se encaixam perfeitamente em cada cena em que são empregadas. Em contrapartida com isso estou escrevendo esse texto menos de 5 horas após o fim da sessão e não consigo lembrar de uma estrofe sequer das músicas cantadas. Foram poucas e nenhuma tem nem a terça parte da força que “Esse é o meu lugar”. Essa parte foi realmente frustrante.


Você pode estar pensando: “Poxa, por que você está só comparando um filme com o outro?” Eu te respondo: Esse foi exatamente o sarrafo que os idealizadores colocaram pra si ao adotar o nome para título. A comparação sempre será inerente. Parodiando o Tio Bem posso dizer que: “Com grandes Títulos vem grandes responsabilidades.” Benjamin Parker nunca erra!

Apesar do roteiro extremamente raso e personagens pouco aproveitados é uma animação que vai agradar seu público para quem foi feita. A lição de moral característica está lá, o humor leve também, e o ingresso infinito para a sessão da tarde com certeza está presente.


Então:

Pais, levem suas crianças, eles vão se divertir!

Fãs da animação original, abram a Netflix e assistam ela novamente. Se poupem da frustração.


Nota – 2 Acarajés


Assista o trailer abaixo: