Review - Maid

Baseado no livro autobiográfico Maid: Hard Work, Low Pay, and a Mother’s Will to Survive (ainda sem tradução para o português), escrito por Stephanie Land, Maid, a nova série da Netflix, é um relato visceral, cru e potente sobre a realidade de uma mulher e mãe, com todas as suas encruzilhadas internas e externas, numa sociedade.


Na série de dez episódios que oscilam entre 40 minutos e uma hora, acompanhamos Alex (Margaret Qualley), uma mulher vítima de violência doméstica, cuja luta pela sobrevivência, tanto sua como de sua filha. É um relato de socorro, mas também de superação dos próprios limites, de um desafio a realidade que parecia querer esmaga-la. Após fugir da casa do namorado e pai da pequena Maddy, Sean (Nick Robinson), a protagonista se vê basicamente sem chão, no escuro, mas ainda assim corre, se tornando uma faxineira, buscando algo que há muito desconhecia: independência e liberdade.


Para começo de conversa, é importante frisar que a série é altamente dura, lhe dando a verdade sem muitos rodeios ou romantização. De fato, há momentos em que Alex consegue resultados positivos e sentimos alivio juntamente com esperança, como por exemplo quando recupera a guarda de sua filha ou quando consegue a matricular numa creche de maior qualidade com a ajuda de Nate (Raymond Ablack), porém, em grande parte do tempo, a protagonista sofre de mazelas vindas de todas as direções, onde parece que dando dois passos para frente, sofre uma rasteira e um soco no estômago pouco depois. Seja pelo seu inicial não reconhecimento como vítima (afinal, até aquele momento, Sean não teria a machucado fisicamente e há um consenso popular e até mesmo criminal sobre validação ou não com relação a marcas corporais), seja pela relação conflituosa com sua mãe, Paula (Andie MacDowell), uma mulher excêntrica, de alma livre, também vitima de diversos abusos, mas que vive em negação ao que parece, Alex tenta arrumar sua vida e aos demais, pouco tendo estruturas para si mesma em todo o tempo.


Diversos aspectos dessa série são incríveis e muito bem abordados para além do foco principal, este sendo o núcleo que diz respeito à sobrevivência de vítimas de violência doméstica, os traumas envolvidos e a maternidade, mas abordar sobre aspectos como políticas sociais (absurdamente difíceis de adquirir, por vezes contraditórias entre si, nitidamente limitadoras e estigmatizadas), a dificuldade de uma escritora em desenvolver sua escrita, que também lhe serve como farol, bem como a inversão de papeis raciais estereotipados (afinal, uma parte significativa das clientes que Alex aborda são mulheres não-brancas, sendo a principal delas Regina, interpretada pela belíssima e competente Anika Noni Rose o que nos dá um gostinho de minorias em outros espaços sociais, que por mais que não sejam comuns, existem).


E falando sobre atuações, eu acredito que a escalação do elenco tenha sido perfeita ou algo muito próximo disso. A protagonista carrega e mantém o foco em si, numa interpretação incrivelmente tocante por parte de Margaret Qualley, nos fazendo ver que Alex não é uma coitada, não é simplesmente alguém que se acomoda, mas igualmente também não é perfeita, cometendo seus erros morais e suas atitudes questionáveis que nem sempre tem relação com seu abuso. Para além disso, não há um personagem perfeito e bom, mas sim pessoas ali na tela, com suas rachaduras, erros, imperfeições, mas também seus acertos e belezas.


Ainda nessa linha, é necessário falar sobre a atuação magnifica de Andie MacDowell, quem curiosamente também é mãe da atriz-protagonista, num jogo ligeiramente engraçado onde a vida imita a arte, nos dando uma perspectiva sobre doenças mentais não diagnosticadas, abuso crônico e maternidade. Outro personagem muito bem feito é o de Sean, onde vemos uma faceta diferente de Nick Robinson, costumeiro galã de romances, mas que tem a possibilidade de explorar outros limites de sua atuação nessa série.


Em suma, Maid é provavelmente uma das melhores séries do ano, disparadamente, mas também é uma obra de difícil digestão, de realidade escancarada e fotografia belíssima de florestas, praias e lagos. A obra sai do lugar comum, lhe dando esperança, explorando gêneros sem cair no ridículo, quebrando seu coração e o costurando de volta com palavras.


Nota: 4 acarajés.


Ficha Técnica

Título Original: Maid

Ano: 2021

Duração: 545 minutos

Roteiro: Molly Smith Metzler

Produção: Brett Hedblom, Erin Jontow, John Wells, Margot Robbie, Tom Ackerley

Direção: John Wells, Helen Shaver, Nzingha Stewart, Lila Neugebauer, Quyen Tran

Distribuidora: Netflix

Elenco: Margaret Qualley, Andie MacDowell, Nick Robinson, Anika Noni Rose, Tracy Vilar, Billy Burke, Rylea Nevaeh Whittet, Raymond Ablack, Billy Burke, Aimee Carrero, Xavier de Guzman, BJ Harrison

Classificação: 16 anos

Gênero: Drama, Questões Sociais

País de Origem: Estados Unidos da América