Sobre sonhos, memórias e canções

Atualizado: 16 de abr. de 2021


É clichê começar qualquer texto relativo à arte em 2020 com "em tempos pandêmicos, os artistas mundiais tiverem de reinventar-se". Isso é mais que óbvio; tornou-se cotidiano. Também é piegas trazer à tona o "Novo Normal" e suas discussões enfadonhas, isto é, o fato do capitalismo querer adentrar o período de doença global e fazer com que o consumo trave uma batalha territorial com as incertezas do futuro.


Sobre este ponto, contudo, eu tenho me questionado bastante e prezo trazê-lo à reflexão conjunta: o que será de nós? Quem seremos nós? O que se fará de nós?


Pra aquele que é artista, a incerteza, sim, é parte do cotidiano. Meu próximo disco fará sucesso? As pessoas entenderão a minha mensagem e o meu atual estado de espírito? Eu vou conseguir marcar shows e chegar em praças que não tenho costume? Tanto maiores são essas questões a quem decide lançar-se ao Show Business.



É tendo este cenário que a carioca Dora Morelembaum estreia sua carreira como cantora, compositora e produtora em seu primeiro single, a canção "Dó a dó", de autoria compartilhada com Tom Veloso.



A obra, por si só, não é nenhuma invenção musical, ou um rompimento com qualquer padrão estético e sonoro vigente. É muito mais um resgate do que qualquer outra coisa. De fato, é sobre aquele papo do "imenso retorno ao pós-futuro já visto". Não é cópia. Não, jamais. É que os jovens de hoje em dia tendem a revisitar cada vez mais seus antecessores poéticos e musicais. Nesse caso em específico, "Dó a Dó" é um retrato de outro movimento de frescor carioca, a Bossa Nova. Harmonia rebuscada, poesia de amor, leve e do cotidiano. E isso não é ruim, jamais. O jovem dos recém anos 20 não precisa usar da metáfora pra ter fala, como no caso do movimento tropicalista que assim o faziam pra passar pela peneira da censura. Não. O que eles querem dizer eles dizem porque querem ser "audivelmente" entendidos.



Quando escuto Dó a dó, compreendo que ela é uma música cinematográfica e imagética. Cinematográfica porque facilmente serviria de trilha sonora para os mais refinados longas-metragens. O que, de fato, está aliado ao segundo aspecto de que é possível enxergar toda história sendo contada bem diante dos nossos olhos. Toda condução poética pela escolha dos códigos para além de qualquer esguia pretensão metafórica, é precisa, e mais, fez-se pungente. Esse é o poder da canção. E, obviamente, a canção é produto da parceria de letra e música. Esta última igualmente estupenda e precisa. É a harmonia que arma a cama desse amor ardentemente desejado e revivido. É a harmonia que comprime e relaxa, que traz a esperança pela sutileza de, numa progressão, substituir um acorde menor por um maior e nos transportar à paz. Pra mim, esses dois elementos são mais que complementares, são transbordantes.


A gravação desse fonograma conta com nomes de peso como o pai de Dora, o maestro, compositor, instrumentista e arranjador, Jaques Morelembaum; o grande contrabaixista Jorge Helder, a harpista Silvia Passaroto, o próprio Tom Veloso no violão e grande time de músicos.


Desde que pude compreender Dora (se é que isso é possível) vi uma peça fantástica de puro talento e dom. Dora diz não ser muito aplicada aos estudos teórico-musicais - apesar de ter feito 6 meses de aulas de violão com o grande Cézar Mendes. Portanto, eis o ponto da admiração: Dora borbulha talento nato, de canto e controle vocal, de intuição sonora, de caminhos harmônicos. Bom que se diga que a compreensão do estudo musical estende-se a um universo muito maior que papel, cadeira, quadro negro e caneta. Na verdade, tem muito que ver com escutar muitos álbuns, também. Por isso a influência composicional.


Estrear em meio a uma pandemia apresenta grandes desafios. Isso se deu no caso da carioca. Dora tinha show de lançamento marcado em Maio de 2020. Mas, graças a Deus, nada é maniqueísta. Apesar da ansiedade, a espera permitiu preparar as coisas com mais calma. E eu digo "ainda bem"!


Nesse momento Dora está finalizando o seu álbum, que, segundo ela é "um projeto diferente" de Dó a Dó. "Dó a Dó ocupa esse lugar da canção que é diferente das outras coisas" que compõe. Resta-nos aguardar.


A atmosfera encantadora de um lindo sonho, de memórias e de canções. Um sonho que se desmancha na belíssima execução da orquestra (que causa estranhamento nas primeiras audições, mas é preciso calma). Assim defino Dó a Dó, single de estreia de Dora Morelembaum. Dó a Dó é um eterno devir, um trânsito de constância numa autoestrada brasileira; viaja-se, portanto, de dó a dó, entre lembranças e sentimentos extremos e pertencentes um ao outro. É um afago romântico de pureza, solidão e companhia.



Escute Dó a Dó em todas as Plataforma s Digitais.






Pedro Gusavaqui é estudante de Licenciatura em Letras Vernáculas na UFBA, poeta e compositor. Entusiasta da nova leva de artistas brasileiros, passou a analisar e a escrever sobre eles em sites especializados em música e cultura.